MARÃO ANIMA AS FOSSAS ABISSAIS DO BRASIL

Rodrigo Fonseca

Dono de uma invejável coleção de gibis, incluído joias da BD francesa, Marcelo Marão, um dos mais aclamados animadores do Brasil, promete fazer um balanço do setor num papo com o Canal Like (530 da NET/Claro), nesta quinta-feira, às 10h, fazendo um balanço da produção nacional. Há anos, ele é uma referência entre animadores nacionais e estrangeiros por sua habilidade de aglutinar talentos, em paralelo à sua devoção a seus projetos, como “Bizarros Peixes das Fossas Abissais”, já em andamento. Este ano, ele rodou o mundo com um curta novo: “O muro era muito alto”, exibido em telas brasileiras em eventos como ANIMAGE – 10º Festival Internacional de Animação de Pernambuco, o 29° Curta Cinema e o recém-encerrado Lanterna Mágica, em Goiânia. Exibido no Monstra! de Lisboa, em março, e projetado em mostras na Argentina, no México, na Eslováquia e na Alemanha, este ensaio sobre resiliência marca a volta ao circuito de uma grife que coleciona prêmios. Nascido em Nilópolis, no estado do Rio de Janeiro, há 48 anos, Marão dirigiu 14 curtas-metragens, que receberam 120 (!) prêmios em 605 (!!) festivais pelo Brasil e o mundo. Os últimos foram no Canadá e em Portugal, pelo curta “Até a China”. Seu novo filme é um trecho animado (integral) do longa de ficção live action “Unicórnio”, de Eduardo Nunes, exibido na Berlinale, em 2018. Na trama, que se ambienta no que parece ser uma instituição manicomial, uma menina (Barbara Luz) ouve o pai (Zécarlos Machado, um dos mais aclamados atores do teatro brasileiro) contar a fábula de um camundongo em busca de liberdade.

“Quando eu comecei a participar de festivais com meus primeiros curtas, era raro ter alguma animação brasileira selecionada. Na última década, era raro NÃO haver uma animação brasileira selecionada. E é cada vez mais comum que um de nossos filmes seja premiado! Viajei a muitos festivais de animação no passado, mas ultimamente ouço “Vous êtes brésilien?” com regozijo. Somos respeitados como nunca havia acontecido antes. É uma sensação fantástica”, diz o diretor ao Bonsucesso Blues. “O primeiro filme eu cometi saiu em 1996, mas as primeiras animações foram feitas, como flipbooks, nas orelhas dos bloquinhos do armarinho do meu pai em Nilópolis, nos anos setenta”.

Esquisito é o adjetivo mais adequado ao título de seu primeiro longa, o citado “Bizarros peixes das fossas abissais”. E era mais esquisito ainda: “Minha Bunda É Um Gorila”… assim, com cada palavra em caixa alta, pois é o nome de uma super-heroína, cuja região glútea dá lugar a um símio gigante. Há um ano, num papo com o JB, ele explicou: “Escrevi o argumento deste meu primeiro longa há mais de dez anos. O maior trunfo em poder realizá-lo agora é ter uma equipe formada majoritariamente por geniais e talentosas mulheres. Nossa equipe é formada por mulheres na animação, na produção, na finalização, no som. Sendo meu primeiro longa, estou ‘neofitamente’ compartilhando muitas informações do filme que – na época dos curtas – ficavam guardados comigo. E isso tem feito toda a diferença. Porque a protagonista do filme é uma mulher. É um filme esquisito, com personagens estranhos e situações bizarras, mas cujo roteiro tem muitas opiniões e experiências minhas. E ouvir a opinião das mulheres que eu tanto admiro e com quem trabalho sobre as cenas é algo inédito pra mim”, disse o animador.

Ao nosso ilustríssimo blog, Marão cravou: “A maior diferença – e a que mais felicidade me proporciona – é poder lidar com os mesmos personagens durante três anos e meio. Em uma curta, eu convivo com o personagem durante – no máximo – um ano. Em trabalhos encomendados, o animador desenha o mesmo personagem por um mês, às vezes menos de uma semana. Em um longa, o animador é capaz de desenvolver o estilo, o design, a personalidade, a atuação do personagem por um tempo muitíssimo maior”, explica o diretor. “Estou muito mais feliz com a protagonista hoje do que com a proposta de dez anos atrás. Ela é uma chefe de família. Ela mantém a família unida. E é ela quem luta. E luta muito”.

p.s.: Lançado em 2014, na esteira dos 75 anos do Homem-Morcego (hoje octogenário), o álbum “The Joker: A Celebration”, uma coletânea de HQs e ensaio sobre a gênese do maior vilão da DC Comics (quiçá o maior ferrabrás dos quadrinhos na História), hoje se torna um ímã de vendas na web por conta do êxito de bilheteria de “Coringa”, de Todd Phillips, em circuito. Até o fim desta semana, o longa-metragem com Joaquin Phoenix há de contabilizar US$ 1 bilhão mundialmente. Essa cifra amplia a busca por produtos com o Palhaço do Crime, que, atualmente, estampa a capa da edição nº5 do gibi “O Relógio do Juízo Final”, um crossover entre os heróis da Liga da Justiça com Watchmen. Nos EUA, tem Coringa na capa da edição dos 30 anos de “Asilo Arkham”, na revista “Joker/ Harley: Criminal Sanity” e no álbum “The Joker: Year of The Villain”, que se tornou um must read na indústria pop por ter como autor o cineasta John Carpenter, mítico realizador de “Halloween” (1978), laureado este ano com a Carroça de Ouro em Cannes.