MATTOTTI E OS URSO DA ALEGRIA

RODRIGO FONSECA

Convencida por sucessos como “Venom” e “Coringa” de que chegou a hora e a vez dos vilões, Hollywood começa a transformar a dinâmica de representação dos filmes com DNA nas HQs, apostando mais na ambiguidade de caráter (o que já se espera de “Os Eternos”, com Angelina Jolie), indo num caminho oposto ao que o cinemão europeu parece querer fazer com a estética quadrinística. A Europa abriu para si uma clareira para a alegria, em forma de fábula, com a ajuda de uma animação para crianças, com ursos falantes, varinha mágica perdida e montanhas com cara de gente: “A famosa invasão dos ursos à Sicília”. Explosão de cores e de alegria, o longa-metragem, exibido em disputa pelo prêmio Un Certain Regard (Um Certo Olhar), entregue anualmente no Festival de Cannes, na seção homônima, paralela à peleja pela Palma de Ouro, é dirigido pelo quadrinista italiano Lorenzo Mattotti, que desenhou a folia do Brasil no álbum “Carnaval: Cores e movimento” (2006). De Cannes, seu filmaço foi a Locarno, outro festival que aposta na invenção autoral.


 “A exigência de que a arte seja realista tolheu muito da imaginação dos criadores e confinou a criação cinematográfica a uma pasteurização de fórmulas. Até no desenho animado, tudo é figura com olhos grandes, tudo é apocalíptico. Ninguém mais se diverte, ninguém celebra a beleza da natureza como as crianças celebram a chegada de brinquedos novos, com muitas cores”, disse Mattotti ao Bonsucesso Blues. “Tentei fazer um filme com soldadinhos de chumbo, bonecas, animais falantes e uma montanha que chora de saudade. É uma forma de traduzir melancolia sem assustar”. 

Com € 11 milhões nas mãos, Mattotti, hoje com 65 anos, transformou em animação um livro do escritor Dino Buzzati (1906-1972): “La famosa invasione degli orsi in Sicilia” (1945). Na trama, o Rei Urso invade uma cidade atrás de seu filhote, que conta com a ajuda de um mágico e de uma jovem para voltar à sua vida na natureza.   

“Buzzati criou uma literatura de muita metafísica, que me serve para fazer uma homenagem à arte de contar histórias. Logo que os ursos chegam a uma cidade lotada de pessoas sem laços com a terra, com a mata, eles precisam aprender a se comportar, a se socializarem. É um estudo das diferenças”, diz Mattotti, que convocou o veterano dramaturgo e roteirista Jean-Claude Carrière (que escreveu “A bela da tarde”) para dar voz a um velho animal das matas. “É uma coroação dos grandes narradores, no intuito de festejar a fabulação como resistência”.

p.s.: Como este papo aqui começou falando de vilões, vai aqui uma boa:

Lançado em 2014, na esteira dos 75 anos do Homem-Morcego (hoje octogenário), o álbum “The Joker: A Celebration”, uma coletânea de HQs e ensaio sobre a gênese do maior vilão da DC Comics (quiçá o maior ferrabrás dos quadrinhos na História), hoje se torna um ímã de vendas na web por conta do êxito de bilheteria de “Coringa”, de Todd Phillips, em circuito. Até o fim desta semana, o longa-metragem com Joaquin Phoenix há de contabilizar US$ 1 bilhão mundialmente. Essa cifra amplia a busca por produtos com o Palhaço do Crime, que, atualmente, estampa a capa da edição nº5 do gibi “O Relógio do Juízo Final”, um crossover entre os heróis da Liga da Justiça com Watchmen. Nos EUA, tem Coringa na capa da edição dos 30 anos de “Asilo Arkham”, na revista “Joker/ Harley: Criminal Sanity” e no álbum “The Joker: Year of The Villain”, que se tornou um must read na indústria pop por ter como autor o cineasta John Carpenter, mítico realizador de “Halloween” (1978), laureado este ano com a Carroça de Ouro em Cannes.